Aspectos clínicos




Métodos
Aborto médico: A gravidez pode ser interrompida medicamente, usando uma combinação do antiprogestativo mifepristone (RU 486) com uma prostaglandina. Até às 9 semanas este método é extremamente eficaz e seguro, com uma percentagem muito reduzida de mulheres a necessitarem de intervenção cirúrgica posterior por aborto incompleto. Das 9 às 22 semanas é preferível o aborto cirúrgico, pois o aborto médico com os actuais regimes de dosagem é ineficaz, com maior perda de sangue e maior probabilidade de ficar retido.
Após um aborto médico, a mulher pode ter uma hemorragia mais intensa do que a hemorragia causada por um aborto cirúrgico. Trata-se de uma hemorragia semelhante a uma menstruação. As dores também são mais frequentes e pode ocorrer alguma febre e diarreia. Se este método falhar, o aborto terá de ser completado cirurgicamente.

Aborto cirúrgico: No aborto cirúrgico podem ser utilizadas várias técnicas:
Aspiração: O conteúdo do útero é esvaziado por meio de uma cânula de plástico/metal ligada a uma fonte de aspiração, que pode ser eléctrica ou manual. Pode ser necessária dilatação cervical (dilatadores mecânicos, prostaglandinas, laminárias), para a introdução da cânula. É realizado com anestesia local paracervical, sedação ou anestesia geral.
Dilatação & Curetagem: Dilatação cervical para aceder ao interior do útero e raspagem de toda a cavidade uterina para extracção. Realizada com anestesia local paracervical, sedação ou geral. Esta técnica acarreta muitos mais riscos e é mais dolorosa.
Após um aborto cirúrgico, pode ocorrer spotting e hemorragia ligeira durante vários dias ou mesmo semanas. As naúseas, com ou sem vómitos, também podem ser um problema, embora desapareçam ao fim de 24 horas.

Complicações
Embora o aborto, realizado adequadamente, não implique risco para a saúde, o perigo aumenta progressivamente para além desse tempo. Quanto mais cedo for realizado, menores são os riscos existentes.
Entre as complicações do aborto destacam-se as hemorragias, as infecções e evacuações incompletas, e, no caso de aborto cirúrgico, as lacerações cervicais e perfurações uterinas. Estas complicações, muito raras no aborto precoce, surgem com maior frequência no aborto mais tardio. Todos os estabelecimentos que prestam este serviço têm de estar equipados de forma a reconhecer as complicações do aborto, com pessoal treinado quer para lidar com elas, quer para referenciar adequadamente as mulheres para cuidados imediatos.
Não há evidência de que um aborto sem complicações tenha implicações na fertilidade da mulher, provoque resultados adversos em gravidezes subsequentes ou afecte a sua saúde mental.

Aconselhamento
Desde sempre, uma das questões mais difíceis de resolver é a relação que existe entre o que se pensa, o que se sente e o que se faz. No âmbito da gravidez não desejada, esta situação é especialmente evidente. O aborto é quase sempre uma decisão de grande tensão emocional, que implica uma série de opções, em que a decisão tomada pela mulher pode colidir com preconceitos sociais, morais e religiosos.
Perante uma gravidez são múltiplas as respostas possíveis. Criar um espaço de comunicação e de encontro, no qual a mulher possa expor a sua situação e verbalizá-la num ambiente de confiança e apoio é fundamental.
O aconselhamento tem por objectivo o estabelecimento de uma relação de ajuda com a mulher. Aqui ela pode escutada e reflectir sobre a situação em que se encontra. Devem ser dadas informações correctas e apropriadas, de forma a ajudá-la a tomar decisões informadas, a reconhecer e a fortalecer defesas e a desenvolver uma atitude positiva.
Todas as mulheres que pensem realizar um aborto devem ter acesso a aconselhamento, apoio e empatia que respondam às suas necessidades pessoais e culturais. Este aconselhamento deve abranger uma variedade de opções e oportunidades de assistência. Na actual legislação está determinado um período de reflexão obrigatório correspondente a três dias. Em certas circunstâncias, a mulher pode estar a sofrer pressão por parte do parceiro, da família e/ou de outras pessoas, quer para fazer um aborto, quer para continuar a gravidez. A decisão deve ser sempre tomada de forma tranquila, consciente e responsável.

Se a decisão for de interromper a gravidez, é necessário informar sobre a legislação vigente, assim como os cuidados que esta exige. É extremamente importante dar a conhecer à mulher os procedimentos da intervenção para neutralizar falsos conceitos induzidos socialmente, que levam a estados de grande ansiedade. As mulheres devem estar completamente informadas sobre o que acontece durante e após a intervenção. Deve ser disponibilizado à mulher aconselhamento contraceptivo e deve ser feito o encaminhamento para uma consulta de planeamento familiar.







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